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Confrarias Gastronómicas · Gastronomias

Confraria Nabos e Companhia

Insígnia:

Um barco funde-se com uma carroça encimada por

um nabo. Símbolos de gente que, um pé na terra, outro no

mar, labuta árdua e diariamente.

Actividades Culturais:

Livro Contos da Confraria

Livro Contas da Confraria

Direcção:

Dr. Silvério Jesus Manata

Fernando dos Santos Conceição

Nuno Roberto de Jesus Janicas

Sede:

Rua Dr. Manuel Rosete, 185

3070-616 Carapelhos - Mira

contactos: Tel: 964 019 120 / 967 162 287

associação CONFRARIA NABOS E COMPANHIA de

Carapelhos é a única Confraria Gastronómica oriunda de

uma aldeia.

Para isso nasceu. Para autenticar a ruralidade, para

homenagear e divulgar cada vez mais a genuinidade das

suas gentes e dos seus grelos de nabo – alimento rico de

aromas e sabores que, versátil, valoriza a gastronomia

Gandaresa.

E fá-lo desde o ano 2000.

Porém, esta terra, sendo mãe, (e é conhecida a nossa

afeição à terra - mãe que nos embalou a infância) é

simultaneamente madrasta porque, para além do berço

modesto, com pouco mais nos mimou: herdámos-lhe um chão

areento, quase estéril, que não enche cristãmente a boca

a todos e obrigou a sangria grande de homens. Os que,

mais apegados ao torrão natal, não ousaram tornar-se

andarilhos entregaram-se a uma agricultura de

subsistência cuja adiafa acontecia em Outubro. Mas

incomodava-nos aquele sossego de Outono que se estendia

até Janeiro. Dominando mal o impulso que nos impele a

amanhar a terra para fecundá-la e garantir o sustento

até ao ano novo, ensaiámos os grelos de nabo que,

resistentes ao frio e apreciadores da humidade de

Inverno, se adaptaram. O resto da história é conhecido.

Hoje partem daqui camiões para os mercados europeus. Da

saudade ou não. E das 151 famílias que habitam a terra

em permanência, apenas 15 não vivem do cultivo dos

grelos de nabo, o que nos esclarece àcerca do peso desta

actividade na economia local.

Reflexos desta actividade que, à míngua de registos, se

perdem no tempo, encontram-se até no culto religioso: a

festa da Senhora da Conceição, padroeira desta terra que

se celebra no dia 8 de Dezembro, também sempre foi

conhecida por festa das cabeças. De nabo, obviamente.

Até o ritual de entronização, em que o novel confrade

bebe pela cabeça do nabo, testemunha a tradição dos

tempos em que, pela festa, se talhava na cabeça do nabo,

o copo por onde escorria o vinho.

A confraria pretende dar continuidade ao espírito

agremiador propiciado pelas pequenas comunidades. Somos

autênticos nabos, nascidos e criados na região da

Gândara que, em bloco, aderimos às múltiplas iniciativas

protagonizadas pela Confraria. A começar por aquela para

a qual, enquanto gastrónomos, estamos vocacionados:

comer. Os nossos encontros regulares são realizados numa

autêntica e tradicional casa da região – a casa

Gandaresa – onde cada confrade é submetido ao teste da

cozinha e carece da aprovação de todos os outros.

A nossa Gastronomia Tradicional Gandaresa não se confina

aos produtos da terra. Àquilo que lhe arrancamos

juntamos a dádiva do mar e da Ria. Se somos a aldeia

mais afastada do nosso concelho de Mira a que foi

concedida a bênção de espraiar as suas magníficas matas

verdes por largos quilómetros de Atlântico e inúmeros

canais de água doce, tivemos o privilégio de encostar a

um distrito que empresta o nome a um vasto lençol de

água: a Ria de Aveiro. E a míngua de pão empurrou-nos

cedo para lá. Fosse ao leme de um moliceiro na apanha

dessa alga capaz de fertilizar o sustento; fosse, feitos

marinheiros descobridores do século XX na proa de um

bacalhoeiro em demanda do fiel amigo na solidão fria dos

mares gelados; fosse nas marinhas, vergados ao peso da

cesta de sal que haveria de conservar o bacalhau que

estava logo ali ao lado, nas secas; fosse ainda, água

pelo pescoço, ao calcão à cata das enguias. Mas as

sardinhas na telha, o pitáu de raia, as batatas assadas

na areia com carapau e grelos, os berbigões abertos na

brasa eram (e são) lenitivo para tantas canseiras. Para

não falar das enguias. Das de caldeirada às suadas e às

de escabeche. E do bacalhau. Das caras aos buchos e às

línguas.

Dentro do espírito de ver reconhecida a genuinidade dos

grelos de nabos e a actividade que ocupa cerca de 80% da

população da aldeia, promovemos a criação da ASSOCIAÇÃO

DE PRODUTORES DE GRELOS DOS CARAPELHOS. O esteio da

certificação, esperamos, de um produto que se alargou à

região. Para isso promovemos, em parceria com a Câmara

Municipal de Mira e outras entidades, a FEIRA DOS GRELOS

DA REGIÃO DA GÃNDARA que se realiza em Janeiro. Neste

contexto de divulgar e levar longe o nome da terra e do

Concelho e, por que não dizê-lo, aprender, temo-nos

feito representar em grande número de eventos e marcado

presença regular nos meios de comunicação social,

nomeadamente na televisão. Mas não ficam por aqui as

nossas actividades. Outras se destacam:

- Abertura da Feira Gastronómica de Santarém.

- Lançamento do livro «Contos da Confraria».

- Geminação com a «Cofradía Amigos de los Nabos» das

Astúrias.

- Participação, a nível mundial, no concurso Slow-food.

- Embaixada à América para promoção dos grelos e da

região

- Criação de DVD sobre o concelho de Mira.

- Plantação de uma vinha.

Mas estes homens não esquecem as raízes. Usamos, como

traje, o gabão dos nossos avós com uma insígnia onde um

barco se funde com uma carroça encimada por um nabo. São

símbolos óbvios de gente que, «um pé na terra outro na

água», labuta árdua e diariamente pela côdea.

Por isso deu já entrada na Câmara Municipal o projecto

de um monumento, da autoria do arquitecto Carlos Mendes,

que irá ser implantado no largo da fachada da Casa

Gandaresa, que celebra os grelos de nabo e as suas

laboriosas gentes.

VII Grande Capítulo -

2008

Nós, Nabos e Companhia, celebramos hoje o nosso VII

CAPÍTULO. Festa maior de uma confraria cuja significação

radica nas assembleias gerais periódicas de uma

congregação religiosa onde, no início dos encontros, se

procedia à leitura de um capítulo da REGRA MONÁSTICA,

conjunto de preceitos destinado a guiar a conduta das

comunidades monásticas de que há rasto nos nossos

actuais Regulamentos Internos. Da ancestralidade e do

contexto onde ocorria o capítulo, emana, pois, ainda

hoje, ao ser actualizado neste ritual festivo, uma certa

aura de religiosidade.

Porém, se enquanto confraria é relevante que recuperemos

esta solene cerimónia monastical, que legitimidade terá

uma Confraria Gastronómica para se reclamar herdeira de

tão austeros e frugais cerimoniais?

Parece haver uma certa incompatibilidade entre o

substantivo confraria e o adjectivo gastronómica que a

caracteriza. O conceito de confraria possui algo de

esotérico e conquistou já o inconsciente colectivo com

foros de sacralidade: é a fraternidade que comporta a

ideia de disponibilidade para o outro e através da qual

se há-de ascender ao absoluto, enquanto o termo

gastronómica, que particulariza a ideia de irmandade,

remete para o corpóreo, para a prosaica tarefa do

aparelho gástrico. É o conceito, aparentemente

antagónico, da espiritualidade de um D. Quixote a

vergar-se ao materialismo de um Sancho Pança.

Esgaravatando, há-de pôr-se a descoberto a raiz grega do

adjectivo gastronómica cuja etimologia encaminha para a

vileza de ingerir e processar alimento, seja para

humanos ou para animais. Fazê-lo era, instintivamente,

garantir a sobrevivência mas, progressivamente,

desfrutar dos prazeres proporcionados pela comida e era,

continuando a herança dos imemoriais tempos pagãos,

poder manifestar a alegria de estar vivo; era, num mundo

politeísta e dedicado ao culto naturalista, celebrar

agradecidamente as Divindades da Fartura; era festejar a

Natureza. Foi converter o simbolismo litúrgico do trigo

e do vinho dos mistérios Eleusinianos no ritual cristão

da Última Ceia. É a coabitação do profano e do sagrado.

Neste contexto, o acto primordial que assegura a

continuidade da espécie começou a estar para além das

necessidades vitais. A abundância trouxe o desejo da

novidade, da experimentação, do exotismo. Cada vez mais

elaborada, a comida foi-se requintando e a evolução

semântica do étimo gastro ganhou estatuto que, pela sua

abrangência, a eleva acima do conceito de culinária: é o

culto epicurista da mesa

Enquanto o refinamento dos alimentos vai ganhando peso

definha a noção de desavença entre matéria e espírito e

ganha consistência a ideia do ser humano enquanto um

todo indissociável, de corpo e alma. Nesta perspectiva,

o acto de comer não é um acto desgarrado da envolvente

cultural e social. Fazê-lo é preservar o património e os

valores imateriais da gastronomia tradicional.

O Gandarês lançou mão da dádiva do mar que lhe ronda a

porta e dos escassos produtos de um chão areento. Foi

desta união do Atlântico com a areia maninha que a

cozinha desta região encontrou a sua expressão mais

genuína; daqui lhe arrancou manjares que nos confortam o

espírito e o estômago e são esses saberes ancestrais que

evocam em nós uma infinidade de vivências e sensações. O

culto pelos prazeres da mesa regional motivou-nos a

fundar uma associação que homenageia a genuinidade de

sabores e saberes daquilo que por cá ainda se saboreia.

Conscientes de que quando um punhado de NABOS se senta à

mesa é a Gândara toda que para aí é convocada,

reconcilia-se o conceito antinómico dos elementos

constituintes de confraria gastronómica pois há algo de

abençoado e litúrgico em preservar e divulgar a partilha

saudável e festiva dos paladares gandareses. Há oito

anos que vimos construindo essa mesa com alma.

Justificada a dignidade de um capítulo gastronómico, e

porque neste contexto também cabe celebrar a mitologia

das colheitas, a nossa escolha para a cerimónia de

insigniação dos novos confrades não recai no convento

(que não temos) mas num campo de grelos de nabo,

alimento rico de aromas, sabores, vitamina c e ácido

fólico que optimiza a nossa gastronomia. Espaço pouco

acolhedor mas que, para além de arejar o modelo

instituído, permite sentir, testemunhar e apreciar o

trabalho artesanal da apanha deste vegetal que também

tem projectado o nome deste concelho.

Silvério Manata

fonte:

confrarias gastronómicas portuguesas